dimanche 14 septembre 2014

A LONGA RESPOSTA DO REI MVEMBA NZINGA AO PADRE AGUIAR


Depois de ter recebido as reclamações do povo Kongo vindas de quase todas as regiões do Reino, desde Benguela até ao rio Lamba, concernente aos actos de barbaridades praticados pelos portugueses, Ne Mvemba Nzinga perdeu a confiança pelos missionários cristãos e o amor pelo cristianismo, o que provocou uma forte sensação de insegurança por parte dos padres católicos que tinham na pessoa de Mvemba Nzinga um amigo e colaborador dinâmico na divulgação da nova Religião (CRISTIANISMO) no Kongo.
Face a esse facto, o pároco da Missão Católica, na altura, o Padre AGUIAR dirigiu-se ao Lumbu (Palácio do Rei), onde tentou consolar o rei Mvemba Nzinga, nos seguintes termos:
«Rei, existe uma diferença de comportamento entre os missionários e os portugueses comerciantes, por isso, não podes renunciar ao cristianismo devido ao mau comportamento dos europeus ligados ao comércio. São eles que violam as mulheres bakongo e traficam seres humanos. São eles que exploram minerais sem a autorização de Mbanza Kongo, são eles e não os padres e seus servos»
Depois dessas palavras do padre Aguiar, o rei Mvemba Nzinga, em resposta, tomou a palavra e de forma demorada, respondeu, dizendo:
- Uma vez, meu filho Lukeni Haniki (D. Henrique I), disse-me: “ Pai, quando eu estava a estudar na Europa, viajei muito em Portugal, França e Itália. Investiguei muito sobre o comportamento das pessoas nestes países e conclui que, no que diz respeito ao fabrico de barcos, armas e outros bens, os europeus são superiores, mas no que toca a espiritualidade, religiosidade, obediência aos mandamentos divinos, bons hábitos e decência no comportamento, os bakongo são superiores aos povos de Portugal, França e Itália”
O dia que ouvi essas palavras, não as dei lugar no meu coração. Mas quando me lembrei que, desde a sua infância, Lukeni nunca mentia. Dizia apenas o que via ou fazia; sem dizer-lhe nada, fui comparando o comportamento dos europeus e o dos kôngo e constatei que tudo o que disse o meu filho é verdade.
Sim, no que toca o bom comportamento, nós bakongo somos altamente superiores.
O espírito que a maioria dos europeus têm, que os leva a separar e odiar outras raças humanas, não é Espírito de Deus. Esse comportamento dos europeus, não é fruto de pessoas com nível espiritual elevado, visto que Deus é Amor.
Se no futuro vier a existir entre os bakongo, pessoas que odeiem os europeus, isto será fruto do vosso mau comportamento para com os negros. Pois, os anciãos de MUELA KONGO (=Governo Espiritual do Povo Kongo no Mundo Espiritual), dizem: - KIKUNANGA MUNTU I KIOKIO KESINGA GIONZEKA= a pessoa colhe o que ela semeia.
- WONSO UNA DIA MFILU I YANDI MPE UNA LOMBA O MENO= quem come MFILU (fruto silvestre de cor preta) é que escurece os dentes.
Os negros não odiavam os brancos até que estes vieram em suas terras e começaram a maltrata-los.
Antes da sua ida para a Europa, meu filho Lukeni era uma das crianças kôngo que amava muito os europeus: mas desde que voltou da Europa, onde viu os maus hábitos dos europeus e a forma satânica de como os brancos tratavam os negros, seu coração em relação aos Europeus, mudou radicalmente.
Sr. Aguiar, antes da vinda dos europeus na nossa pátria, era muito difícil ver no Kongo um adúltero, bêbado, gatuno ou assassino. Mas agora, veja o mau exemplo que os portugueses estão a dar ao povo Kongo, eles que trouxeram o nome de Cristo no Kongo.
Ao verem o adultério, o alcoolismo, a gatunice e a matança dos europeus, os bakongo já não conseguem entender nada.
Antes da vossa vinda no Kongo, os Sacerdotes Kôngo (Ngudi za Nganga), ensinavam ao povo kôngo que: “o adultério, a gatunice e derramar sangue de inocentes é colocar uma grande barreira entre o homem e Nzambi a Mpungu (Deus) ou seja estes actos retiram a bênção de Deus e provocam desgraças e calamidades num país”.
Quando a minha tia materna (mama nleke) Mansanga ma Kongo transgrediu a lei, sabes bem que ordenei a sua execução (enterrada viva), porquanto, os grandes sacerdotes, no passado, ensinaram ao povo kongo que: os actos injustos não são admissíveis aos olhos de Deus, dos bisimbi (anjos, génios) e dos ancestrais do Kongo.
Por isso, antes da vinda dos mindele no Kongo, todo transgressor era punido, com a sanção adequada ao acto ilícito por ele praticado.
O transgressor era punido, mesmo que fosse filho do rei, seu irmão, sua mãe, seu cunhado ou seu amigo. Pois, antes da vinda dos brancos no Kongo, os sacerdotes (Ngudi za Nganga), ensinavam que: a não aplicação justa das leis aos malfeitores, retira a bênção de Deus no país, provocando desgraças que gera desordem, calamidades e todo tipo de sofrimento no país.
Por isso, o povo kôngo, não consegue entender porque é que o rei de Portugal não pune até agora os actos incorrectos do seu povo que trouxe o nome de Jesus no Kongo.
Antes da vinda dos europeus no Kongo, todo o estrangeiro que visitasse uma das nossas aldeias era bem recebido, dando-se-lhe de comer e de beber e quando decidisse deixar a aldeia, lhe era dado farnel para a sua restauração ao longo do caminho. Pois, antes da vinda dos brancos no Kongo, os sacerdotes (Ngudi za Nganga), ensinavam que: amar ao próximo como a si mesmo é a lei das leis nos Céus e na terra, no Kongo e no Simu Kongo (Mundo Espiritual).
Nenhuma das orientações dada por Cristo e trazida pelos europeus no Kongo constitui novidade, visto que já existiam antes da vinda dos europeus.
Eu Mvemba Nzinga conclui a minha aprendizagem no Centro de formação de sacerdotes da Religião Kôngo (Kinsasa kia banganga) antes da vossa vinda. Pois, fui escolhido para ser sacerdote no templo do kongo (Kinlongo kia Kongo), da religião kongo(Kinzambi kia Kongo).
Sempre que evangelizo, muitos padres me perguntam onde aprendi tudo que tenho ensinado. Dizem que os meus ensinamentos têm sido tão profundos apesar de não frequentar nenhum seminário. Perguntam a que se deve tudo isto.
A minha resposta é a seguinte: a maioria das coisas que tenho ensinado nas igrejas, provêm da cultura kôngo (Lusansu lua kongo) que aprendi no Lemba e Kimpasi (um dos centros de formação de sacerdotes tradicionais).
Sr. Aguiar, são os portugueses que trouxeram o nome de Jesus aqui no Kongo, mas agora, o mau comportamento dos portugueses, faz-me sentir-se envergonhado e angustiado perante o povo kôngo que eu obriguei a converterem-se ao CRISTIANISMO.
Os anciãos de MUELA KONGO (Conclave Espiritual), dizem: «TEKA KATULA NTETE E TITI KINA MUNA DISU DIAKU, IBOSO O VAVA OKATULA KIOKIO KINA MUNA DISU DIANGANI», o que quer dizer que: Tire antes o empecilho nos seus olhos, depois procure tirar o que estiver no olho de outrem.
Por isso, é melhor que a igreja de Cristo na Europa, procure primeiro endireitar o comportamento dos europeus antes de enviar os seus sacerdotes fora da Europa, aos estrangeiros. Pois, diz o nosso Senhor Jesus Cristo: De que vale possuir o mundo inteiro se perderes a sua alma?
Eu desejo a salvação do mundo inteiro. Mas tenho a certeza que para salvar este mundo: não basta apenas ir ajudar os que se encontram longe da nossa pátria natal.
O mundo só será salvo, se cada um de nós dedicar a sua vida, no sentido de endireitar o comportamento das pessoas situadas ao seu redor, em qualquer parte do mundo que ele se encontre.
Enviar pessoas de mau comportamento nos países estrangeiros é procurar destruir a boa relação, o entendimento e a cooperação existente entre os povos neste planeta Terra.
Pois, só as pessoas de bom comportamento podem salvar o mundo e introduzir em todos os países do mundo o espírito de entendimento.
Por isso, todas as pessoas de bom comportamento de todos os países do mundo, devem unir esforços, visto que, a chave para a salvação do mundo está em suas mãos, por serem a luz do mundo.
Sabendo que vós tendes muito trabalho em endireitar o comportamento da vossa gente na Europa, penso que não é preciso continuarmos a solicitar o envio de sacerdotes cristãos para o Kongo, uma vez que eles têm muito trabalho na Europa.
Reflictamos em torno da resposta dada por Mvemba Nzinga ao Padre Aguiar. O Padre Aguiar tinha razão no que ele disse ao nosso Ntotela? A resposta de Mvemba Nzinga foi justa? Que lição podemos retirar desse diálogo havido entre um europeu e um bakongo há muitos séculos?


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